Longos Planos


 
 

 

O herói e sua sombra

 

 

 

Sei que é difícil resistir à pressão do Oscar, tantos filmes indicados estreando – Os Descendentes, Moneyball, Histórias Cruzadas... Mas cinéfilo que é cinéfilo tem que largar tudo neste fim de semana e ver o novo Clint Eastwood, o esnobado “J. Edgar”, que não teve sequer uma mísera indicação – nem para o primoroso trabalho de Leonardo DiCaprio como o chefão que fundou e mandou no FBI durante 35 anos, de 1935 até sua morte em 1972.

Um diretor convencional centraria o filme na luta de Hoover contra os comunistas, ou contra os gângsteres, ou mesmo contra Martin Luther King e o movimento negro no fim da vida. Clint não: ele sabe que a maior guerra de um homem é travada contra si mesmo. Sua provável homossexualidade, mostrada no filme com o devido respeito e reforçada pela figura da mãe (Judi Dench) é, nesse cinema clássico, a sombra que age sobre o herói e mina suas certezas. Como em “Bird”, sua biografia de Charlie Parker, Clint trabalha na fotografia de “J. Edgar” essa transição constante da luz à sombra na qual vaga o protagonista.

A figura de Hoover serve perfeitamente à trajetória de Eastwood: o herói clássico, revestido da certeza de quem são os bons e os maus deste mundo, entra em colapso ao descobrir que a nação e ele mesmo são feitos de nuances e ambiguidades – e portanto, toda luta traz consigo a dúvida sobre a sua razão de ser.

Outro ponto a reter, entre tantos: velho tributário do cinema de John Ford, Clint toca em “J. Edgar” naquele que é o tema central de “O Homem que Matou o Facínora” (1962): entre a verdade e a lenda, ele escolhe a segunda para encenar – nem que seja para, ao final, deixar a máscara cair. Em Clint, o cinema clássico vive em eterno questionamento. Um questionamento adulto, longe das infantilidades que ainda vamos ver na safra deste Oscar.

Assista o trailer



Categoria: Cinema
Escrito por Thiago Stivaletti às 19h48
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O diretor de “Lost” e o elogio da nostalgia

 

 

Tinha certeza que ia escrever primeiro sobre o “Melancolia” do Von Trier aqui no blog. Mas, neste fim de semana, me apaixonei pelo “Super 8”, a homenagem do J.J. Adams à Amblin, produtora de Steven Spielberg nos anos 80.

Quem tem por volta de 30 anos e ama cinema viu nascer esse amor com “E.T.”, “Os Goonies”, “Gremlins”, “De Volta para o Futuro”, “Um Dia a Casa Cai” – este o primeiro filme que vi num videocassete. Todos foram produzidos pela Amblin.

Em menos de dois minutos, “Super 8” me fez sentir uma criança de seis anos, de novo vendo “E.T.” pela primeira vez. A fotografia emula as cópias da época, aquela mesma luz amarelada que hoje é pura nostalgia. O filme tem até os pulos das cópias antigas e aquele raio de luz azulado e horizontal que aparecia no filme quando a câmera filmava outro projetor. Sem falar na trilha sonora, carregada da emoção da descoberta infantil.


O ET e o coração


Joe Lamb, o protagonista de uns 13 ou 14 anos, descobre as emoções da vida e do amor da mesma forma que o menino Elliott com o E.T. que ninguém nunca mais esqueceu. Claro, Abrams, criador da mítica “Lost”, sabe que está no século 21 – e o E.T. fofinho dá lugar a outra de suas obsessões, um monstro que emula o melhor do Alien. A cena final, porém, é “E.T.” na veia.

As descobertas de uma criança no mudo em interação com o universo mais fantástico: a fórmula que Spielberg inventou em Hollywood no fim dos anos 70 ainda toca o coração. Spielberg começou na TV, inovou o cinema e voltou a produzir TV. Num tempo de irrigação criativa entre as mídias, Abrams inovou a TV com “Lost” e agora se firma como um cineasta muito inspirado.

“Super 8” é, acima de tudo, um elogio da nostalgia. O cinema volta a ter a força da primeira descoberta – mesmo para um trintão como eu, que já viu de tudo e às vezes fica até anestesiado de ver uns 20 filmes por semana.



Categoria: Cinema
Escrito por Thiago Stivaletti às 00h09
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O Brasil e a novela – ontem e hoje


   

1988. O corrupto Marco Aurélio (Reginaldo Faria) pega um jatinho e foge do Brasil com milhões de dólares roubados de sua empresa em “Vale Tudo”. 2011: O corrupto Horácio Cortez (Herson Capri) tenta fugir do Brasil em um jatinho com milhões de dólares na maleta, mas é detido pela polícia em “Insensato Coração” – ambos dão uma banana para o Brasil. Gilberto Braga (e Ricardo Linhares, que tem respondido cada vez mais pela novela) sempre tiveram essa ambição de, além de contar uma boa e longa história, tomar o pulso da nação. Acertaram mais uma vez.

Essa “sacada” entre novelas separadas por 23 anos não quer dizer, claro, que a corrupção no Brasil acabou. O que mudou foi o modo como os brasileiros encaram o país. No fim dos anos 80, com governo Sarney e inflação galopante, o pensamento era o da lei de Gerson: “esse país não tem jeito, e cada um deve tirar a sua vantagem do jeito que conseguir”. Hoje, o pensamento geral é melhor: “o país ainda tem muitos problemas sim, mas já caminhou bastante, e quem sabe um dia seja mais justo e ideal”. O Plano Real de FHC e a distribuição de renda da Lula têm muito a ver com essa mudança de pensamento – mas nada como a novela, muito mais do que o cinema brasileiro, para fazer o espelho dessa mudança.


 

Outras considerações sobre a novela (algumas já andei fazendo no Facebook):


- a entrada e saída constante de personagens começou como efeito esquisito, mas mostrou plenamente a que veio. Personagens como os de Ana Beatriz Nogueira (Clarice), Tarcísio Meira (“Tiodoro”), Milton Gonçalves (Gregório) e Nívea Maria cumpriram papel importante na história dos protagonistas;

 

- Norma (Glória Pires) é a melhor personagem de novela desde a Flora (Patrícia Pillar) em “A Favorita”. Flora era vítima e se revelou vilã lá pelo capítulo 40. Norma é vítima e vilã ao mesmo tempo: tem requintes de crueldade, mas faz tudo por vingança “justificada” – afinal, sofreu um golpe no começo da novela. Num ataque de raiva, tenta matar o marido – e no final consegue (mesmo sem querer, e mesmo depois de se arrepender). E o que não podia faltar numa boa novela: no fundo, ela ainda ama Léo e deve cair de novo na sedução dele. Tudo traz uma boa lembrança da vingança de Márcia (Malu Mader) contra Felipe Barreto (Antônio Fagundes) em “O Dono do Mundo” (1991).

 

- De aplaudir de pé a campanha que os autores estão fazendo contra a homofobia. Quase todo dia algum personagem faz um discurso contra os ataques de pitboys. Ontem (1/7) Roni (Leonard Miggiorin) sofreu uma tentativa de ataque covarde de homofóbicos. Eduardo (Rodrigo Andrade) é um ótimo personagem, que vai saindo do armário gradualmente ao longo da novela. É também uma postura corajosa da Globo, que aceita o risco de perder uma parcela das classes C, D e E que ainda não podem ouvir falar em mundo gay. Afinal, não custa lembrar que o mundo não é a Zona Sul carioca, e tem muito tiozinho de Matão e dona-de-casa de Santana por aí que ainda se aferra aos “sagrados valores de Deus e da família”.



Categoria: TV
Escrito por Thiago Stivaletti às 13h58
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Eu sou o que os outros vêem em mim

 

 

Quem ainda não viu tem que ver. “Cópia Fiel” é um dos dois ou três melhores filmes do ano passado.

Em “Shirin”, penúltimo filme de Abbas Kiarostami, muitas mulheres assistiam ao drama da personagem-título num cinema. Juliette Binoche era uma delas. Nunca vemos o filme rolando na tela, apenas as expressões e emoções das espectadoras na sala. Shirin, a personagem nunca revelada, se formava no reflexo das mulheres que viam e ouviam sua história.

Desse experimentalismo radical, Kiarostami passa agora a “Cópia Fiel”, um filme pseudo-romântico ambientado na Toscana – mas o tema se mantém. A personagem de Binoche parece bem definida no começo: dona de uma loja de antiguidades, mãe de um filho (provavelmente divorciada), amante das artes. Mas essa mulher nunca recebe um nome e vai se apagando ao longo do filme. Quando James (William Shimell) diz que viu uma mulher com seu filho perto de uma estátua, ela imediatamente assume que essa mulher era ela. Num dado momento, ela evocará o passado dos dois (um passado fictício), como se fosse sua ex-mulher.

Kiarostami personifica assim sua tese: uma obra de arte só se constrói a partir do olhar das pessoas sobre ela – e mesmo o olhar de uma única pessoa sobre a obra não será igual duas vezes. A própria Binoche é uma cópia fiel de todas as mulheres que ela se projeta, e que os outros projetam nela. O olhar define o mundo – e também a nós mesmos.



Categoria: Cinema
Escrito por Thiago Stivaletti às 23h33
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As séries da Globo: uma produção em massa


 

Há algumas semanas escrevi aqui sobre minha expectativa com os novos programas da Globo. Expectativa frustrada. Ainda não consegui ver “Lara com Z”, em que Susana Vieira faz sua versão da Gloria Swanson em “Sunset Boulevard”. Mas as outras...

Em “Tapas e Beijos”, Fernanda Torres mostra que não vai escapar tão cedo da Vani de “Os Normais”. “Divã” sofre daquela síndrome da classe média infantilizada – Lília Cabral e as amigas quarentonas frequentam a balada junto com os filhos. E Jorge Fernando histérico em “Macho Man” é uma adaptação de “Zorra Total” pro formato série.

Mas acima disso tudo, o problema parece ser de forma – melhor dizendo, de formato único. As séries procuram variar no tema, mas a forma é a mesma. Uma forma engessada, com poucos personagens, diálogos muitas vezes apoiados em trocadilhos, loucuras burguesas calculadas do tipo trancar o marido pra fora ou botar fogo na mesa do jantar.

Minha última esperança vai ser a volta do “Junto e Misturado”, com a turma de comediantes jovens. Pelo menos esse já mostrou que pode ter um formato um pouco mais solto, anárquico, sem ter nem a amarra dos personagens.

 



Escrito por Thiago Stivaletti às 23h28
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Por que eu (ainda) amo o Big Brother

 

 

O BBB 11 acaba hoje. Estou bem feliz em perceber que não acompanhei essa edição, talvez a mais fraca de todas. Fui viciado absoluto nas edições 2, 5, 8 (essa porque meu amigo Marcelo Arantes participava) e a 10, do ano passado (porque a Lia era de uma loucura fascinante, que batia qualquer vilã). Graças a Deus chego ao final desta edição 11 sem nem ter decorado o nome dos personagens. Os benefícios: deu pra ler mais, ver mais DVDs, ir mais ao cinema, escrever mais no blog.

Mas eu ainda amo o Big Brother. Não pela sua qualidade, que só vem despencando a cada ano – mas porque permite à Globo apostar em outros programas mais ousados. O BBB parece ser o programa mais rentável da Globo. A edição 11 perdeu 20% do público em relação à edição 10 – mas ainda assim ultrapassou o faturamento da edição anterior, chegando a US$ 380 milhões, com 20 produtos anunciados. Um sucesso total de merchandising.

Eu pessoalmente não consigo ver provas de Assolan e Miele Gold todo dia, me ofende aquela propaganda ostensiva, com aquelas pessoas simplórias gritando o nome do produto pra ajudar na operação sem ganhar nada mais por isso. Mas tem quem continue assistindo.

Mas me parece que, com todos esses milhões no bolso, a Globo ganha fôlego para fazer coisas mais interessantes no resto do ano. Entre as mais recentes, a última série do Luiz Fernando Carvalho (Afinal, o que Querem as Mulheres?); os esquetes de Junto e Misturado (com o Bruno Mazzeo e a Fabíula Nascimento), o besteirol mais inteligente desde TV Pirata; a série  inspirada em músicas do Chico Buarque (O Amor em 4 Atos).



Da grade nova, dá pra esperar o retorno de Andréa Beltrão e Fernanda Torres às terças na comédia Tapas & Beijos; o Divã de Lília Cabral, melhor na TV que no cinema; Suzana Vieira se autoparodiando em Lara com Z; e a novela Cordel Encantado, baseada em literatura de cordel, que (dizem) será mais curta que as tradicionais (para uma novela, isso é sempre bom pra qualidade).

Claro, toda aposta pra agradar o grande público tem seus conservadorismos. Lá vai A Grande Família para a 11ª temporada (quem aguenta?). E temo pelo Jorge Fernando estrelando uma série de comédia como um ex-gay (a coisa parece estar mais pra Zorra Total).

Noves fora, o povo adora falar mal da Globo, mas – tirando a TV americana, que é imbatível –, não tem outra emissora na América Latina ou na Europa com uma grade de ficção tão variada.

Democracia na TV é isso aí. Um Big Brother pra agradar sobretudo às classes C, D e E convivendo com programas que garantem o prestígio com as elites do bom gosto.



Categoria: TV
Escrito por Thiago Stivaletti às 19h28
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Os duros ossos da família

 

 

Se tiver que assistir a uma peça de teatro este ano, o negócio é ver “Pterodátilos”, a peça do Marco Nanini com direção do Felipe Hirsch que estreou na última sexta na Faap - fica até maio.

Em um palco movediço que vai perdendo aos poucos o seu chão, uma família põe suas tripas pra fora: um pai ausente, uma mãe alcoólatra, um filho promíscuo com aids, uma filha problemática (Nanini faz o pai e a filha).

O americano Nicky Silver é um Edward Albee contemporâneo nessa exumação dos restos mortais de uma família - pegando ainda mais pesado nos diálogos. Os personagens falam sem parar, deixando a gente atordoado. Falam o que vem à cabeça, sem culpa ou medo de ofender, no fluxo do pensamento.

O público ri de Nanini vestido de noiva, mas dali a pouco já está rindo de nervoso. O texto morde e assopra no público o tempo todo: uma gracinha gratuita sobre a mãe perua e consumista é seguida de uma porrada verbal, como o filho descrevendo ao pai tudo o que fazia na sauna gay até pegar aids.

“Você me fez igual a você. E você se odeia”, diz o filho à mãe. “Eu te amo tanto e não sei como expressar... Se você tivesse uma infecção e eu pudesse te doar um rim, pelo menos isso seria uma prova do meu amor”, diz Emma ao namorado, Thom. “Ele é meu filho. É a coisa mais importante da minha vida. Eu falei coisa? Eu quis dizer pessoa”, diz o pai sobre o filho. E por aí vai.

Poderia ser apenas mais um tiroteio verbal, não fosse a cenografia inspirada de Daniela Thomas, que reproduz as estruturas retas, afiadas e cortantes como as agressões dos personagens; e a fascinante inserção do absurdo: Tom, o namorado de Emma, logo vira a empregada da casa, servindo de bom grado aos fetiches e explorações da família. Um espetáculo negro, do qual se sai com a alma não lavada, mas exumada.



Escrito por Thiago Stivaletti às 00h57
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O tempo que resta


 

Esperava um draminha adocicado de Never Let Me Go (Não Me  Abandone Jamais). Esqueci que era baseado num livro do Kazuo Ishiguro, um escritor japonês que escreve como ninguém sobre as impossibilidades do amor. É dele também “Vestígios do Dia”, que rendeu aquele filme maravilhoso com a Emma Thompson e o Anthony Hopkins.

Em Never Let Me Go, você tem que acreditar numa premissa: num presente hipotético, o governo inglês cria crianças para serem unicamente doadores de órgãos para pessoas doentes. No máximo aos 25 anos, já terão feito duas ou três doações e não viverão muito além disso.

Com um contexto desses, o filme podia render um thriller ou uma ficção futurista sombria. Mas rende uma linda história de amor, sobre três crianças: Kathy, que ama Thomy, que durante anos namora Ruth, que depois se arrepende de ter prejudicado o verdadeiro amor dos dois.

O diretor Mark Romanek filma três personagens trágicos, condenados pelo destino, em lindas paisagens da costa inglesa. Kathy (Carey Mulligan) quer ganhar mais tempo antes de ser “sacrificada”, para enfim realizar seu amor. Mas terá tempo? Ou, como diz ao final, vai fazer alguma diferença? “Desperdiçamos a vida, quando nem sabemos quanto tempo temos. Se soubéssemos, seria diferente?”. Provavelmente não. A vida, para Kazuo Ishiguro, é também todas as suas impossibilidades.



Categoria: Cinema
Escrito por Thiago Stivaletti às 00h44
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A novela da moda

 

 

Já estou com saudade de Ti-Ti-Ti. Não foi nenhuma novela para marcar os rumos do gênero, mas foi especial por algumas coisas:

 

- depois de um monte de série água-com-açúcar (Um Só Coração, JK, Queridos Amigos), Maria Adelaide Amaral provou que sabe tocar uma boa comédia. Tomara que continue no horário;

- ao contrário do que eu esperava, a guerra entre os costureiros foi uma decepção. Cássio Gabus, o primeiro cogitado pela Globo, ia fazer um Vitor Valentim muito melhor do que o Murilo Benício, que há anos tem um timing cômico no piloto automático. Alexandre Borges pior ainda – foi exagerando no pastelão do Jacques Leclair até o limite. Só as crianças gostaram. O destaque acabou ficando com várias histórias secundárias (Marcela e seu bebê, Lipe e Mabi etc.);

- a novela recuperou o saudável hábito de trazer personagens queridos de novelas antigas – todas do Cassiano Gabus Mendes, autor da Ti-Ti-Ti original. Divertidíssimo rever Luís Gustavo como Mario Fofoca. E o que melhor do que Marília Pêra reaparecer no último capítulo como a perua Rafaela de Brega & Chique, lembrando do “meu marido, o Heerrrrberrrrt” e dizendo “no fundo, eu tenho saudade do tempo em que eu era marmiteira”?

- Cláudia Raia tomou a novela pra ela e não largou mais. Derrubou Malu Mader, Giulia Gam, Dira Paes e todas as outras estrelas. Sua Jaqueline ganhou até mais espaço que o duelo Valentim/Leclair. Como bem disse a Maria Adelaide numa entrevista, era a madrinha de todas as tribos da novela, ajudando a quebrar preconceitos;

- last but not least: como bem escreveu o Maurício Stycer no UOL, a novela avançou mesmo na questão gay. O impasse amoroso do cabeleireiro Julinho (André Arteche) com o surfista Thales (Armando Babaioff) tomou vários capítulos, dando espaço pra muitas situações verossímeis – por exemplo, Thales mudando a postura, se fazendo de hétero na frente dos amigos surfistas e ignorando Julinho.

Agora, é esperar Silvio de Abreu e o remake de Guerra dos Sexos – que deve ter Tony Ramos no lugar de Paulo Autran e Cláudia Raia (claro) no lugar da Fernanda Montenegro.



Categoria: TV
Escrito por Thiago Stivaletti às 00h38
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A Última Noite

                                                                                 

 

Ontem fui ao Belas Artes me despedir do cinema. Um calor insuportável de tanta gente que lota o saguão, mas ninguém pensa em ir embora. Estudantes e entidades como a Associação Paulista de Cineastas empunhando faixas e fazendo seus protestos.

Quando chega a minha vez de comprar o ingresso, Samanta, uma das três bilheteiras, não consegue parar de chorar. Está desempregada a partir de hoje, mas não chora só pela sua situação – sabe que um lugar muito bacana da cidade vai morrer daqui a algumas horas.

As salas todas cheias – cheguei lá para ver Queimada, com Marlon Brando, mas a sessão já estava esgotada – acabei vendo O Águia, filme mudo brilhante de 1925 com Rudolph Valentino.

Uma árvore reúne os recados que os espectadores deixam ao cinema. Um deles relembra: “Foi aqui neste cinema num Noitão que eu pedi minha namorada em namoro”. Outro: “Agradeço pelos bons momentos, por ter me feito amar o Woody Allen... Mas não te perdoo por partir assim no dia do meu aniversário! Espero por sua volta.” Um terceiro cita Caetano meio tortamente: “Da força da grana que constrói e destrói coisas belas”. Com o notebook no colo, jornalistas mandam matérias das escadas. Algumas equipes de TV colhem os depoimentos de protesto.

Andando com dificuldade, de muletas, Milton Godói, um senhor de 84 anos que todos os frequentadores conheciam, está lá. Frequenta o cinema desde que ele abriu, há 68 anos. Ainda frequentava os Noitões.

Mesmo com os protestos, o clima era de esperança. André Sturm, sócio-proprietário do cinema, compartilhava o ânimo. “Em dezembro, quando eu soube que o cinema ia fechar, mesmo antes de sair na imprensa, me movimentei para procurar outro endereço (provavelmente no Centro). Mas quando vi toda essa movimentação das pessoas, parei. Não ia ser eu a jogar contra. Eu queria mais é que esse espaço continuasse”, me falou. Agora, a procura pelo novo lugar vai recomeçar – mas ainda com a esperança de reabrir o antigo espaço.

André também me contou que chegou a oferecer R$ 1 milhão por ano pelo aluguel do espaço, num contrato de cinco anos. Ou seja, R$ 5 milhões ao proprietário, Flávio Maluf. Não foi suficiente. Uma grande loja pode pagar bem mais.

Em vez de ceder a esse valor, Maluf prefere fechar o espaço, mesmo que ainda não possa derrubar suas paredes, uma vez que a Prefeitura ainda analisa o processo de tombamento.

Agora, o espaço será lacrado. Menos um espaço de convívio, na avenida Paulista e na cidade.



Categoria: Cinema
Escrito por Thiago Stivaletti às 15h13
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Bruna Surfistinha: a mulher que nem o filme explica

 

Comecei o Carnaval no Rio tirando o atraso no cinema. Estava muito curioso para assistir Bruna Surfistinha. Fui ver naquele que deve ser um dos piores cinemas do Rio, a Casa de Cultura Laura Alvim. Eu, que estava louco pra ver o filme num Cinemark da vida, rodeado de adolescentes pra sentir o clima de Fla-Flu, acabei numa sala de 60 lugares, quase vazia, com uma tela minúscula e um barulhinho permanente no som. Mas nem assim o filme me decepcionou.

O diretor Marcus Baldini e os produtores acertaram no tom: Bruna, o filme, é quase uma aventura, a jornada sui generis dessa garota de classe média que (de repente) decide virar garota de programa. Não só por dinheiro, não exatamente por rebeldia, e sim por uma indefinível curiosidade.

Quem já viu a Bruna real dando entrevista na TV sabe que ela não faz o discurso da vítima. Assume tudo o que fez e fala do seu passado com uma naturalidade desconcertante – assim como fazia no blog. O grande trunfo do filme é seguir esse tom e fugir de todo e qualquer drama (ou melodrama) para retratá-la.

Claro, o filme não é A Bela da Tarde. Buñuel era mestre, entre outras coisas, por respeitar o mistério do ser humano – nunca sabemos ao certo por que Séverine (Catherine Deneuve) se prostitui. Bruna, o filme, tenta de um modo torto estabelecer esses motivos – Raquel teve uma experiência sexual péssima com um garoto na escola. Mas a explicação não basta. Os freudianos podem tentar outra: Raquel é adotada, e um imenso vazio paterno a levou a procurar tantos homens. Mas tudo é simplista, nada encerra o mistério dessa figura.


Bruna, a prostituta que vive no nosso imaginário coletivo há alguns anos, é maior que Bruna, o filme. Mas Baldini dirige a coisa toda com bastante segurança para um estreante. Se o tom geral está mais para agradar os garotos de shopping, a opção de Bruna por essa vida radical não será só “divertida”. A cena do primeiro programa (com Cássio Gabus) é particularmente perturbadora – e toda a parte final da decadência nas drogas (numa levada meio Boogie Nights) também deixa um grande mal-estar.

Só faltou dizer o principal: todo mundo adora falar mal de Deborah Secco na TV, mas ela segura o papel com toda a coragem. Fazer uma periguete na novela está bem longe das cenas barra-pesada que ela encara aqui.



Categoria: Cinema
Escrito por Thiago Stivaletti às 01h58
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Para Gilberto Braga, crítico de cinema é boiola

Assista à cena

"Boiola! Vai ser crítico de cinema!"

Cássio Gabus xingando o editor dele hoje em "Insensato Coração".

Lamentável, Gilberto Braga. Xingamento grosseiro e totalmente gratuito à classe. Acho que vc está ficando gagá, perdeu a mão total.



Categoria: TV
Escrito por Thiago Stivaletti às 00h33
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O Oscar tem complexo de inferioridade?

 

 

Foi um ano ruim pro Oscar nos dois sentidos.

Na premiação, a coroação completa do academicismo de O Discurso do Rei (melhor filme, diretor, ator) deu vontade de chorar. Ninguém discordava que Colin Firth merecia a estatueta, mas melhor filme? Quem é Tom Hooper, Oscar de melhor diretor já no primeiro trabalho?? Os votantes perderam uma ótima chance de premiar David Fincher, um cara que já surpreendeu o cinemão algumas vezes (Seven, Clube da Luta) e agora ajuda a trazer alguma qualidade aos filmes comerciais (Benjamin Button, A Rede Social).

Os membros da Academia nutrem um complexo de inferioridade seriíssimo em relação aos ingleses. Hollywood produz blockbusters de ponta como A Origem, grandes filmes dialogados como A Rede Social, até animações de roteiro tão maduro quanto Toy Story 3, e precisa dar seu maior prêmio a um drama chá-da-tarde sobre a gagueira de um rei?

No outro sentido – a festa –, reinou não o complexo de inferioridade, mas a esquizofrenia. De um lado, grandes momentos como as participações de Kirk Douglas aos 94 anos (eu jurava que ele vivia numa cadeira de rodas, mas ele apareceu todo saltitante) e Billy Crystal – desde que o comediante deixou de apresentar o Oscar, a festa nunca mais retomou seu nível de inteligência. Anne Hathaway é linda e espirituosa, James Franco é lindo e nem tão espirituoso – a imprensa americana bem reparou que ele foi amarrando a cara ao longo da cerimônia –, os dois têm apelo jovem, mas falta personalidade.

Por outro lado, tivemos que encarar um vídeo pros adolescentes que distorcia a fala dos atores, bem ao estilo piadinha do YouTube, e um final Teleton, com crianças cantando.

E, em 2012, já serão quatro anos desde que o Oscar acertou pela última vez na premiação, com Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen. Quem sabe no ano que vem eles voltam a sentir orgulho do que produzem.



Categoria: Cinema
Escrito por Thiago Stivaletti às 20h26
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Mas as minhas novelas, quanta diferença...

 

 

- Você pode me explicar o que está acontecendo?

- Quer mesmo que eu te explique? Olha no espelho. Você acha mesmo que estava apaixonado por você?

- Você ainda vai pagar por tudo isso.

- Eu? Eu rezo três Pai Nossos e duas Ave Marias e Deus perdoa.

Norma (Glória Pires) ao descobrir o golpe de Léo (Gabriel Braga Nunes) em Insensato Coração


 

 

- O meu neto não pode estudar no Brasil.

- Qual o problema? O Brasil tem ótimas universidades.

- Ótimas universidades, sei... Só se for escola de samba.

Odete Roitman (Beatriz Segall) a Marco Aurélio (Reginaldo Faria)

 

 

- Aconteceu comigo o que acontece com muitas mães por aí. Minha filha nasceu, eu cuidei dela com todo o carinho; daí ela cresceu, adoeceu e morreu. E agora eu até já esqueci.

Raquel (Regina Duarte) sobre Maria de Fátima (Glória Pires)

 

Difícil dizer que Gilberto Braga continua o mesmo, né?

Não sei se a novela nova tem salvação.

Negócio é esperar a próxima do João Emanuel Carneiro, autor de A Favorita, que só estreia depois do Aguinaldo Silva...



Categoria: TV
Escrito por Thiago Stivaletti às 12h34
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Os Coen e o western cambaleante

 

 

Antes de ver o Bravura Indômita dos irmãos Coen, fiz aquele exercício que cinéfilo adora: aluguei o Blu-Ray do Bravura original, de 1969, que deu o Oscar a John Wayne.

Os Coen sempre lembram que a fonte de seu remake foi o livro, e não o filme antigo (com direção de Henry Hathaway). Mas o exercício foi bom para perceber o quanto de irmãos Coen existe no novo western.

Logo no começo, três homens esperam o enforcamento. Em seu discurso, o primeiro se diz arrependido do assassinato que cometeu, e espera que seus filhos não sigam seu caminho. O segundo não tem remorso nenhum: está ali apenas porque matou o homem errado; se tivesse matado o homem certo, não seria condenado. E ainda fala que vê dali do balcão muitos homens que são piores que ele. O terceiro, um índio, mal tem tempo de falar – o carrasco já chega logo lhe metendo o capuz.

Rascunha-se aí um dos grandes temas dos Coen: no primeiro condenado, o sentimento de culpa (algo trazido talvez da origem judaica); no segundo, a ausência total de culpa; no terceiro, um toque de humor negro misturado a crítica social. (Sobre a culpa e ausência dela – ou o questionamento dela –, a obra maior dos Coen ainda é “O Homem que Não Estava Lá”).

Tirando outras diferenças evidentes (o filme antigo tem um prólogo a mais, o novo tem um epílogo a mais), o que grita forte é que no primeiro filme, puramente comercial, Hathaway conduz a ação com vigor e muito ritmo, e os personagens, sempre determinados, agem com toda a fúria. No novo Bravura, mais autoral, os personagens padecem daquela “falha humana” que os Coen adoram. Cambaleiam, fazem tudo de um modo meio torto, e por isso mais crível. Jeff Bridges bêbado se entrega muito mais à fraqueza de seu Rooster Cogburn do que John Wayne se permitiria na época. Na cena em que Mattie dá o tiro fatal e cai num poço cheio de cobras, a coisa é totalmente desencontrada, como o tiro do nada que Brad Pitt toma em Queime Depois de Ler.

Um western dos nossos tempos, com a marca de dois dos maiores autores de Hollywood.



Categoria: Cinema
Escrito por Thiago Stivaletti às 02h06
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